Anjos
Anjos
Anjos são aqueles seres que aparecem quando a esperança já fazia as malas. Uns têm asas, segundo a fé.
Outros usam chinelos, fazem comida, atendem um telefone, oferecem um abraço ou simplesmente ficam ao nosso lado em silêncio.
Talvez anjos não sejam criaturas com asas, como nos desenhos dos livrinhos de catecismo, mas pessoas
comuns que, por alguns instantes, recebem a missão extraordinária de amenizar a dor, devolver a
esperança ou lembrar que ainda existe bondade no mundo.
Eu descobri, ao longo da minha vida, que aqui na Terra também existem muitos anjos. Mas eles escondem as asas. E mais do que isso: descobri que vivo cercado deles por todos os cantos.
São de carne e osso. Muitos já são avós. Cada um carrega a sua própria cruz. Mesmo assim, encontram
tempo para aliviar a minha e fazê-la parecer muito mais leve.
Foi justamente por reconhecer esses anjos espalhados pela vida que resolvi retribuir essa benesse com um carinho especial. Criei um grupo de amigos que se reúne de vez em quando em volta de uma mesa para comer, beber, rir e falar mal da vida dos outros — principalmente quando eles estão ausentes.
A parte mais interessante dessa tertúlia é que ela é meio coração de mãe: sempre cabe mais um.
Talvez nem todos percebam, mas cada um desses amigos é um anjo disfarçado. Todos têm uma participação fundamental na sustentação do meu humor e do meu bem-estar.
Uns cuidam de mim como se eu fosse um nenezinho.
Outros me abraçam e me enchem de carinho.
Há os que me ouvem em silêncio e, quando finalmente respondem, pregam mais do que ensinam — talvez essa seja mesmo a missão dos anjos.
Também existem aqueles que gostam da minha companhia simplesmente por gostar.
E há os que até já me arrancaram da cama só para me levar passear.
Talvez seja por isso que eu nunca mais procurei anjos olhando para o céu. Os meus sempre estiveram bem mais perto.
Por isso tudo, tenho comigo uma conclusão:
Lá no céu tem muito anjo de asa.
Os daqui escondem... mas não sabem disfarçar.
MM


