Ser canhoto é dureza!
SER CANHOTO É DUREZA
Nasci canhoto numa época em que isso era quase um defeito de fabricação. Hoje em dia as pessoas acham interessante, algumas até dizem que canhotos são mais criativos. Mas experimente voltar aos anos 40 para entender o que era carregar essa "marca" na carteira de identidade invisível.
Naquele tempo, ninguém gostava de canhoto. A escola não gostava. A professora não gostava. A diretora não gostava. As tias não gostavam. Se aparecesse um canhoto na sala de aula, parecia que tinham encontrado um problema que precisava ser corrigido urgentemente.
Comigo tentaram de tudo. Fui obrigado a escrever com a mão direita. Tive a mão esquerda amarrada. Levei broncas. Ouvi sermões. E houve até um episódio memorável: fui obrigado a engolir um papel porque ele havia sido escrito com a "mão errada". Hoje parece piada, mas naquela época era coisa séria. Tão séria que eu quase me senti um criminoso internacional por segurar o lápis do lado esquerdo.
O curioso é que ninguém nunca me perguntou uma coisa muito simples: "Mas você consegue escrever com a mão direita?" A resposta seria não. Minha mão direita sempre teve a mesma habilidade artística de uma batata tentando bordar uma toalha.
Apesar de todos os esforços da humanidade para me transformar em destro, sobrevivi. E aqui estou eu, mais de sete décadas depois, firme e forte, canhoto de carteirinha e sem o menor arrependimento.
Aliás, sobreviver já é uma grande vitória. Porque o mundo continua sendo um enorme parque de diversões para destros. Tesouras são feitas para destros. Carteiras escolares são feitas para destros. Abridores de lata são feitos para destros. Cadernos foram inventados por alguém que certamente odiava canhotos. Até a tinta da caneta parece ter feito um pacto secreto para borrar exatamente onde a nossa mão vai passar.
Ser canhoto é viver em permanente estado de adaptação. É como participar de uma olimpíada invisível todos os dias. Enquanto os destros usam os objetos normalmente, nós precisamos descobrir um jeito alternativo, criativo e, muitas vezes, acrobático de fazer a mesma coisa.
Mas existe um lado muito positivo nessa história.
O canhoto desenvolve uma habilidade extraordinária para resolver problemas. Afinal, desde criança eu aprendi que nem tudo foi feito para mim. Então improvisei. Adaptei. Inventei, criei, redesenhei. Descobri caminhos novos. Talvez seja por isso que muitos canhotos tenham fama de criativos.
Outra vantagem é que nós aprendemos cedo a não desistir. Quando você passa a vida inteira enfrentando mesas, ferramentas, equipamentos e objetos que parecem conspirar contra você, acaba desenvolvendo uma certa teimosia saudável. E essa teimosia ajuda muito na vida.
Além disso, ser canhoto cria uma espécie de irmandade silenciosa. Quando dois canhotos se encontram, existe um olhar de cumplicidade que dispensa explicações. É quase como dizer: "Eu sei o que você sofreu para aprender a usar uma tesoura."!!
Hoje tenho 76 anos e continuo usando minha mão esquerda com orgulho. Depois de tantas tentativas de me consertar, cheguei à conclusão de que eu nunca estive quebrado. Apenas nasci diferente da maioria.
E quer saber de uma coisa? Ainda bem. É muuito bom ser canhoto!
Porque se o mundo foi feito para os destros, nós, canhotos, tivemos que aprender a conquistar nosso espaço. E isso nos transformou em especialistas na arte de superar obstáculos. Canhoto não tem pra ninguém!
Portanto, quando alguém disser que ser canhoto é difícil, eu concordo imediatamente.
É difícil, sim.
Mas também é uma das formas mais divertidas de aprender a vencer o mundo usando exatamente a mão que ele tentou impedir de existir.
MM

