A CANETA BIC
A CANETA BIC
Lembrei de uma passagem dos anos 60.
Naquela época, eu trabalhava em uma empresa cujo chefe do almoxarifado distribuía as MODERNAS canetas Bic para os funcionários. Mas havia uma condição: toda vez que a carga da sua caneta acabasse, você deveria devolver a carga vazia ao almoxarifado. Em troca, eles lhe entregavam uma carga nova.
Sim, você entendeu corretamente: você ficava com o canudo da caneta, devolvia a carga e ganhava uma carga nova.
Para ganhar DE NOVO uma outra caneta, precisava de uma requisição assinada pelo seu gerente. (SIC!)
Pensando nos dias de hoje, a economia parecia irrisória. Mas, naquele tempo, isso tinha algum sentido.
A Bic vendia a caneta completa, com tampinha, canudo e carga de tinta, e também comercializava SOMENTE a carga, que você podia comprar separadamente. Quando a tinta acabava, você podia simplesmente trocar a carga e continuar usando a mesma caneta.
O mais interessante, porém, eram os preços.
Uma caneta Bic, naquela época, custava relativamente caro. E não era por acaso. A caneta era uma novidade, uma inovação. Era uma coisa que pouca gente tinha.
Naquele tempo, muita gente ainda escrevia com caneta-tinteiro. Outros escreviam a lápis ou com caneta de pena de aço, cromada ou dourada (chique).
De repente, apareceu uma caneta de plástico que você simplesmente pegava e escrevia. Não precisava de tinteiro, não precisava molhar a ponta da pena na tinta e não precisava ficar preocupado com a tinta escorrendo.
Caso você fosse canhoto como eu, quando escrevia com caneta-tinteiro, além de sujar a mão de azul (sim, azul - só os professores usavam tinta preta), ainda borrava toda a página. Era um tal de escrever uma linha e soprar para a tinta secar antes de escrever a outra linha.
Naquele tempo, a professora dizia:
- Mudem de página no seu caderno e escrevam o que eu ditar em seguida.
O "ditado" era uma tortura para canhotos com caneta-tinteiro. No tempo que demorava para secar a tinta da linha escrita, a gente perdia o texto.
- Professora, por favor, a senhora pode repetir a última frase?
- Menino, você está me atrasando!!!
Quando não, vinha uma reguada na cabeça e pronto. (Era assim mesmo.)
E quando você batia a mão sem querer no tinteiro?
LAMBANÇA!
Hoje, uma caneta Bic é uma coisa tão comum e tão barata que ninguém dá importância a ela. Mas, naquela época, ela representava uma novidade tecnológica.
É curioso pensar nisso.
Uma coisa que hoje parece banal já foi uma grande inovação e chegou a custar caro justamente porque era novidade.
E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes do progresso: aquilo que um dia parece moderno, sofisticado e até caro, com o passar do tempo se torna tão comum que ninguém mais percebe a importância que teve.
MM


